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As Aventuras de Tom Bombadil


1. As Aventuras de Tom Bombadil

O velho Tom Bombadil era mesmo um tipo alegre:
sua jaqueta era azul e as botas amarelas;
verde a faixa, de boa pele os calções;
no chapéu pontiagudo, punha de cisne uma pena.
Vivia lá prá colina donde corre por sinal,
o rio Withywindle da sua fonte pró vale.

No estio, o velho Tom passeava pelos prados,
a colher flores silvestres, a correr atrás das sombras,
a apanhar os abelhões nas doces flores pousados
ou sentado à beira d’água, pelas covas e pelas lombas.

A sua barba comprida parece a água beber;
vem de lá a Baga d’Ouro, filha do Rio-mulher;
puxa Tom pelos cabelos: vai-se no lodo rojar;
por sob os lírios brancos, o pobre a gorgolejar.

"Ei, Tom Bombadil! Pra onde vais?", pergunto eu.
Disse a fada Baga d’Ouro: "Com as bolhinhas que fazes
assustas os meus peixinhos e o mergulhão, lá no céu;
e molhas – olha que pena! – a pena do teu chapéu."

Para seres linda menina, traz-ma cá,
diz Tom Bombadil. Não m’interessa vadiar.
Mergulha! Vai lá prás sombras onde o sol não chegará,
sob a raiz dos salgueiros, linda dona, dormitar!

Para casa da sua mãe, lá bem do fundo do rio,
nadou bela Baga d’Ouro; mas Tom não a seguiu:
sobre a sombra dos salgueiros assentou-se no chão mol’,
secando a pena molhada e as suas botas ao sol.

Acordou Homem-salgueiro, começou o seu cantar,
e pôs o Tom a dormir com o seu canto de embalar;
numa fenda o apertou: taque! E logo a fechou;
preso ficou Bombadil e a pena de enfeitar.

"Ah, Tom Bombadil, em que estás tu a pensar,
a espreitar prá minha árvore pra a beber me observar;
e com essa tua pena coceguinhas me fazer;
a pingar prá minha cara como se for a chover?"

"Deixa-me lá ir embora, ó velho Homem-salgueiro!
Sinto-me mal instalado, nem sequer há travesseiro
nestas raízes torcidas. Vai beber do rio frio!
E vai dormir o teu sono como faz Filha-do-rio!"

Homem-salgueiro o soltou, quando ouviu assim falar;
E a casa de pau fechou, a ranger, a resmungar,
dentro da árvore a murmurar. Do salgueiro Tom saiu
e ao longo do rio subiu. Na orla da floresta
se sentou e pôs à escuta das avezinhas em festa.
As borboletas voavam, brincando no azul do céu,
até que as nuvens vieram e o Sol desapareceu.

Então, o Tom correu, que já a chuva caía,
pondo aneizinhos na água, enquanto o rio corria;
pingaram gotas das folhas com o vento que soprou;
pra um abrigo improvisado o velho Tom saltou.

Sai de lá amigo texugo, que a visita não esperava,
com os seus olhinhos piscos; por baixo a terra minava
com a mulher e os seis putos. Pelo casaco o agarraram
e lá pró fundo dos túneis a bem ou mal o levaram.

Na sua casa secreta, resmungando se sentaram:
Com que então, seu Bombadil, assim se entra aos trambolhões,
forçando a porta da frente da casa dos texugões?
O pior é pra sair, pois nunca o conseguirás do sítio onde te
levaram.

"Pois, meu velho texugão, mostra-me a porta do ninho,
que já tenho pouco tempo para me pôr a caminho.
Mostra-me a porta traseira pelas roseiras enfeitada;
depois, limpa-me essas patas e o nariz à petizada.
E volta para a palha do teu travesseiro,
como a bela Baga d’Ouro e o velho Homem-salgueiro!"

"Então", diz a família texugo, "só tens que nos perdoar!"
E pelo seu jardim de espinhos o tornou a acompanhar.
Logo voltou a esconder-se, toda ela a tremelicar,
tapando todas as portas com terra que foi juntar.

A chuva tinha passado. O céu de novo luzia
e, a caminho da casa, o velho Tom já ria.
Tirando a chave do bolso, abre a porta para entrar,
e à volta da lamparina vê as traças a bailar.
Pela janela vê estrelas no céu a pestanejar
e a esguia lua nova para oeste a navegar.

Agora a noite caiu, Tom a candeia acendeu;
subiu as escadas rangentes e uma volta à chave deu.
"Olá, Tom Bombadil, vê que a noite aproveitei;
estou aqui atrás da porta, até que enfim te apanhei.
Sou o espírito do monte que anda, enfim, aqui À solta,
e vivo lá na colina cum anel de pedras à volta.
Pra debaixo da terra te vai levar
E frio e pálido te há-de tornar!"

"Sai daqui! Fecha essa porta , nunca mais te quero ver!
Os teus olhos deitam lume, o teu riso faz tremer!
Vai lá pró teu monte verde, cuma pedra por travesseiro,
e encosta a tua cabeça como o velho Homem-salgueiro;
como a jovem Baga d’Ouro e os texugos na lura!
Volta pró ouro enterrado e prá dor que não perdura!"

Lá fugiu o Homem-sombra pela janela saltando,
pelo pátio, por sobre o muro, como uma nuvem voando;
sobe a colina gemendo para o seu anel de pedras
e chocalhando os seus ossos por baixo do monte de ervas.

Velho Tom Bombadil encostou-se ao travesseiro,
mais doce que Baga d’Ouro, mais calmo do que o Salgueiro;
mais fofo do que os texugos lá na sua terra mole,
dormiu como um pedregulho, ressonando como um fole.

Acordou à luz do dia como um melro a assobiar
e cantou prá doce brisa: "Quem é que me quer amar?"
Sacudiu as botas altas, casaco, pena e chapéu;
depois abriu a janela, olhou o azul do céu.

Velho Tom Bombadil, era um tipo bem taful;
tinha botas amarelas, o seu casaco azul.
Pelo vale ou terras altas jamais alguém Tom viu.
Nem plos trilos da floresta ou pela margem do rio.
Nem num barco sobre a água que beija as margens da ilha.
Porém um dia saiu e apanhou do rio a filha;
toda de verde vestida, entre os juncos se sentava
enquanto prós passarinhos velhas baladas cantava.

Apertou-a nos seus braços! Os ratos-d’água fugiam;
piavam garças reais e dois corações batiam.
Disse Tom Bombadil: "Aqui está a minha beleza,
que vai comigo pra casa, pois até está posta a mesa:
pão alvo, favo de mel, manteiga, nata amarela,
rosas que nascem cá for a e espreitam pela janela.
Vem comigo prá colina, deixa a tua mãe falar:
lá no charco onde ela vive não há ninguém pra te amar!"

Velho Tom Bombadil teve alegre casamento
coroado por campainhas, uma pena por ornamento;
A noiva com não-me-esqueças, brancos lírios por grinalda,
nos lábios uma cantiga, vestido verde-esmeralda.
Canta ele como um gaio, louvando a sua menina,
enquanto prende com o braço a sua cintura fina.

Brilham as luzes na casa, o leito replandece;
até a família texugo na linda boda aparece,
Dança-se pela colina e o velho Homem-salgueiro
tamborila na janela dos que dormem no travessereiro;
na margem, por entre os juncos, Mulher-rio a suspirar
ouviu o Homem-espírito lá no seu monte a chorar.

Velho Tom Bombadil às vozes não deu ouvidos:
pés dançantes, estalidos e da noite outros ruídos;
dormiu até o Sol raiar, logo se pôs a cantar:
"Minha querida, meu amor, minha rosa de toucar!"
Sentado junto da porta, com o salgueiro brincava,
enquanto Baga d’Ouro seus cabelos penteava.

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2. BOMBADIL VAI DE BOTE

O ano velho já as folhas mirrava; do Ocidente o vento
soprava;
uma folhinha de faia Tom apanhou que na floresta encontrou.
"Eis uma boa nova que eu não esperava!
Porquê amanhã o que hoje me agradava?
Hoje mesmo aparelho o meu barco e parto à aventura,
Pelo rio abaixo vou, enquanto a sorte dura!"

O passarinho no ramo pousou e diz para Tom: "Já aqui estou.
Tenho um dedinho que me adivinha onde te leva o teu
barquinho.
Queres lhe diga, que me vá daqui dizer-lhe onde deve esperar
por ti?"

"Nada de nomes, meu tagarela, ou sou eu que te come e
esfola;
sempre a dizeres a quem calha o que te passa pela bola!
Se dizes ao Homem-salgueiro pra onde fui, queimo-te vivo,
bem assado num espeto, pra não falares sem motivo!"

Carriça-salgueiro bateu o rabo e pipilando partiu voando:
"Primeiro tens de me apanhar! E quanto a nomes, não vou
precisar!
Vou pousar-lhe nesta orelha e o recado ele vai escutar.
E sei bem o que lhe vou dizer: ‘Lá onde sabes, ao
escurecer.’
E já não tens tempo a perder! É boa altura para beber."
O Tom riu daquela graça: "Ou vou pra lá ou não sei o que
faça.
Podia ir para outro lugar, mas é para lá que vou remar."
Raspou os remos, remendou o barco, depois tirou-o do seu
buraco.

Por entre os juncos, pelo caniçal, por sob os ramos do
salgueiral,
lá desce o rio sempre a cantar: "Pelo baixio, pelo pego
fundo,
por este rio vou correr mundo!"
"Ei, Bombadil, onde queres chegar,
nesse barquito a navegar?"

"Talvez a Brandywine, que fica do rio à beira;
e em casa dos meus amigos está sempre acesa a lareira.
Fica perto de Hays-end, boa gente lá conheço;
por isso, de vez em quando, desço o rio e apareço."

"Fala de mim aos meus primos, sem notícias não me deixes!
Diz-me onde se toma banho, onde se escondem os peixes!"
"Só faltava…", tornou Tom. "Eu vou apenas remar,
cheirar a água do rio e não recados levar."

"Olha, olha, o peneirento; vê lá se a selha se afunda!
Eu ria se chafurdasses do rio na lama imunda."

"Fala menos, passarinho. Poupa-me as tuas gracinhas!
Melhor que batas a asa, a comer de peixe espinhas!
Um grão senhor no teu ramo, em casa és sujo fedelho
que vives em casa porca, mesmo com o peito vermelho.
Ouvi de aves como tu que abanam o bico ao sol
pra mostrar como está o vento: é o fim da pesca ao anzol!"

Carriça fechou o bico, depois o olho piscou,
enquanto, por sob o ramo, Tom, cantando, passou.
Deixou cair uma pena, que era aul, da cor do céu;
logo Tom rojou a velha e a pôs no seu chapéu.
Ali brilhava essa pena, formosa como uma jóia.
Azul é a cor de Tom! Às outras não liga bóia…

Anéis à volta do barco, bolhinhas num corropio:
Tom bateu o seu remo – pás – contra a sombra do rio.
"Ena, Tom Bombadil! Com que então, a andar de barco?
E se eu lhe desse uma volta e te pregasse no charco?"

"Queres saber, meu bicho-lontra? A cavalo em ti descia o
rio!
Com os meus dedos nas costas apanhavas um calafrio."
"Vê lá, Tom Bombadil, que eu vou dizer à família,
ao pai, à mãe, ao irmão e à irmã, só por quezília,
que com umas pernas de pau vais aí a passear,
a cavalo numa selha … que é coisa de espantar!"

"Vou-te mandar prós anjinhos e curtir a tua pele
pra fazer em anéis de ouro ou, pelo menos, cor de mel!
Se a tua mãe te visse fugiria, era bem certo;
deixa em paz o Bombadil, não te armes em esperto!"

"Livra!", disse o bicho-lontra, chapinhando água do rio,
molhando o chapéu do Tom, levando o barco a um desvio.
Passou por baixo do barco, da margem pôs-se a espreitar,
enquanto o canto de Tom morria, doce, no ar.

O velho cisne da ilha por ele passou altivo,
lançando-lhe um olhar torvo, saltando um rouco grasnido.
Tom riu: "Olá, meu velho, faz-te falta a tua pena?
pois eu bem preciso doutra, para pôr na minha melena.
Se uma palavra gentil dissesses, queria-te mais:
pescoção, garganta muda, altivo entre os animais!
Se algum dia o rei voltar, pode-te recensear,
marcando o bico amarelo para a proa te abaixar!"
O cisne bateu as asas, silvou, avançou veloz;
na sua esteira seguindo, o Tom remou após.

Lá seguiu o curso do rio, espumando e borbulhando;
o pior foi no açude, onde ia lá ficando:
bate aqui, bate acolá, rodando como um farol
Conseguiu, por fim, chegar ao porto de Grinduol.

"Ena! Aqui vem o lenhador Tom, ele e maila sua barba!
Não queremos cá gente dessa, pomo-lo fora, não tarda.
Cuidado, Tom, cautela, que temos arcos e frechas;
Não queremos homens dos bosques; se queres viver, não te
mexas.
Passar o Brandywine pra ficar aqui, nem tentes!"
"Fora, seus barrigas d’unto, não fiquem assim contentes."

"Tenho visto outros de susto esconderem-se a tremer.
Só porque cabra cornuda lá ao longe estão a ver;
que tremem das próprias sombras ou dos raios de luar.
Basta que eu chame os esp’ritos pra vos pôr a debandar!"

"Podes chamar quem quiseres, mete isso no teu toutiço.
Três frechas no teu chapéu! – Também não tens medo disso?
E agora aonde queres ir? Se é em cerveja que pensaste,
Os barris de Breredon não têm líquido que baste."

"Vou-me pra Bandywine por Shirbourne, se puder,
mas mui veloz pró meu barco vai este rio a correr.
Se me pudessem levar na sua chata os petizes,
desejava-lhes boas-noites e muitas manhãs felizes."

Rubro corria o Brandywine; em chamas se acendia,
Para cinzento passava, quando o astro se escondia.
No cais, escadas vazias. Ninguém pra uma saudação.
Salientes estão os passeios. Diz Tom: "Que reunião!"

Tom caminhou pela estrada, enquanto o Sol se apagava.
Luzes brilhavam-lhe à frente. Ouviu uma voz que o chamava.
"Aí, ou!" Pararam os cavalinhos, tinham rodas resvalado,
Tom seguiu o seu caminho, sem sequer olhar para o lado.

"Eh, pedincha duma figa; que trabalho é que arquitectas?
O que fazes tu por aqui, chapéu crivado de setas?
Alguém te cortou as voltas, te apanhou nas roubalheiras?
Pára aí, conta-me cá, seja o que for que tu queiras!
Cerveja, ia jurar, embora um vintém não tenhas.
Vou mandar fechar as portas, antes que tu por aí venhas!"

"Pois sim, meu pata de boi! De alguém que vem atrasado
por ter andado por aí, não acho bem-educado!
Velho e gordo lavrador que andar não pode por asmático
E vem num carro a cavalos, devias ser mais simpático."

"Meu forreta duma figa, pobre não pode escolher,
senão mandava-te embora, ficavas tu a perder,
Vem, Maggot, vem-me salvar! Vem pagar uma cerveja!
Mesmo aqui, ao lusco-fusco, não é amigo quem me não veja!"

Rindo se foram dali, na taberna sem parar,
Embora estivesse aberta e a cervejinha a cheirar.
Voltaram prá rua de Maggot a tropeçar e a cantar,
Tom na sua carroça, a dançar e a saltar.
Brilhavam no céu estrelas, os quartos de Maggot iluminados,
e ardia o lume na lareira, para acolher os atrasados.

Os filhos de Maggot cumprimentaram, as filhas fizeram as
suas vénias,
e a mulher trouxe jarros de cerveja, que as pessoas não eram
abstémias.
Assim, passaram a noite, a dançar e a comer, a palrar e a
folgar.
E o nosso velho Maggot, com toda a sua barriga, não parou de
cabriolar;
Tom tocava gaita, no tempo em que não bebia;
Os filhos faziam roda, a boa esposa ria.

Quando outros foram dormir, sobre o feno ou doutra maneira,
com as cabeças todas juntas, junto as canto da lareira,
O velho Tom e pata-de-boi contaram-se as novidades:
Dos montes e das charnecas, de passeios e cavalgadas;
de espigas de trigo e grão de cevada, de sementeiras e
terreno ceifada;
de conversas no ferreiro, no moinho e no mercado;
de murmúrios nas ramagens, de vento sul no prado.

Velho Maggot por fim dormiu, numa cadeira junto ao lume.
Antes da aurora Tom partiu: como num sonho que só se presume
alguns alegres, tristes outros e ainda alguns de sentido
oculto.
Ninguém ouviu abrir a porta; caiu de manhã chuva de vulto
que apagou suas pegadas; e foi assim que não deixou traços,
que ninguém ouviu suas cantigas nem os seus pesados passos.

Três dias o barco ficou no rio,
e depois ao quarto já ninguém o viu.
Foram as lontras ao que disseram, que vieram de noite e o
soltaram
que o levaram para a barragem e rio acima o empurraram.

Da sua ilha, o velho cisne veio vogando,
com o seu bico pegou na amarra e foi puxando,
com muito orgulho; lontras, ao lado, a acompanhá-lo,
por entre as raízes do Homem-salgueiro para guiá-lo;
na popa, pescador do rei empoleirado e a carriça a cantar do
outro lado.

E assim alegremente, o barco pró seus cais era levado.
Assim chegou à enseada e bicho-lontra disse: "Ai, manas!
Que é um pateta sem pernas ou um peixe sem barbatanas?"
Oh, rio das mil loucuras! Deixaram para trás os remos!
Tem o Tom de ir buscá-los mas até lá não os temos

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3. Vida Errante

Era alegre marinheiro,
passageiro, marinheiro:
fez uma barca dourada
para nela navegar;
e nela tinha guardada
uma carga de laranjas
e papa d’aveia para manjar.
Perfumou-a com alfazema,
cardamomo e badiana.

Chamou os ventos dos navios
bem carregados para levá-lo
sobre dezassete rios
que se interpunham para atardá-lo.
Desembarcou na solidão
onde, por sobre os duros seixos,
as águas verdes do rio vão,
vão para sempre, alegremente.
Depois viajou pelo verde prado
prá terra das sombras, arrepiado;
pelo monte abaixo, pelo monte acima,
na senda rude da triste sina.

Sentou-se e cantou uma melodia,
embora a viagem atrasasse;
pediu a uma linda borboleta
que com ele se casasse.
Ela troçou e escarneceu
sem que dele se apiedasse.

Ele pôs-se a estudar feitiçaria
e tecelagem e serralharia.
Teceu um tecido leve como o ar
para com ele a apanhar;
e logo a seguir construiu asinha
uma asa com um pêlo de andorinha.
Desnorteou-a com fina manha,
com um filamento de teia de aranha;
fez para ela doce morada
toda de lírios; e fez o leito nupcial
com a seda do cardo que nasce no vale.
Com teias de seda que ali encontrou
e raios de luz a ataviou.

De lindas gemas fez colares
mas ela destroçou-os sob os seus olhares
e em tom azedo questionou,
enquanto ele, triste, se afastou.
Ali ficou ela a desfalecer,
enquanto ele fugia todo a tremer;
com o vento que soprava,
na asa de andorinha se afastava.

Passou por cima dos arquipélagos
onde cresce o malmequer louro;
onde há mil fontes de prata
e as montanhas são de ouro.
Pintando a manta para além do mar,
meteu-se na guerra e na pirataria
e a vaguear por Belmarie
e Phelamie e Fantasia.

Fez escudo e capacete
de coral e de marfim
e uma espada de esmeralda
pra lutar até ao fim
com cavaleiros e querubins
e com paladinos loiros
que vindos de lá do rio
para ele cavalgavam em desafio.

De cristal a sua cota
de ágata a sua bainha;
de ébano com ponta de prata
era a espada que tinha.
Seus dardos de malaquite
e ele, lesto, brandia-os:
estava com os dragões-moscas
do Paraíso e vencia-os.

Combateu contra o besouro,
contra zangãos e abelhas
e ganhou o favo de mel;
correndo por sobre o mar
com uma flor por dossel,
num barco d efolha dura,
feliz cantou ao luar
e poliu sua armadura.

Por um pouco se atardou
numas ilhas solitárias,
nada por lá encontrou que não fosse ervas várias;
resolveu, pois, regressar
e ao fazê-lo, com o seu faro,
veio-lhe, enfim à memória
sua mensagem e recado!
Em valentia e fascínio
Já os havia olvidado,
cansado de correr mundo
este excelso vagabundo.
Ia, pois, partir ligeiro
(aparelhando primeiro)
este eterno mensageiro,
passageiro, cavaleiro,
errante como uma pena,
vagabundo marinheiro.

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4. A Princesa Mi

Princesinha Mi, a bela,
lá formosa era ela…
Como se diz em contos de fada,
tinha pérolas nos cabelos,
na sua fronte dourada.
De gaze com fios d’ouro
era o lenço que ela usava,
e um trancelim de prata
a garganta lhe apertava;
De teia de traça leve
e tingida de luar
era o casaco que usava.
De orvalho de diamantes
o cinto que a apertava.

Se passeava de dia,
manto cinzento vestia
e capuz azul-escuro;
Mas se de noite saía
toda brilhante luzia
sob um céu cheio de estrelas.
Com sandálias de cristal
com as quais se dirigia
prá sua pista de dança,
um charco de linfa fria
que nenhum vento bulia.
Mas onde os seus pés tocavam
era uma chuva de estrelas
que da pista se elevavam
e apetecia bebê-las.

Levantou os olhos
para o céu sem fundo
e logo os baixou para as sombras do mundo,
os olhos baixou e viu a seu lado
uma princesa Xi
tão bela como Mi:
Dançavam lado a lado!

Era tão leve como Mi
e, como ela, a mais bela do muno…
Mas estava (nem parece deste mundo…)
pendurada de cabeça
Sobre um poço sem fundo!
Coisa bela entre as mais belas:
Estar de cabeça para baixo.

Sobre um mar cheio de estrelas!
Só os pés
poderiam, tocar-se;
Pois, como encontrar a terra
– fosse vale ou fosse serra –
para não estarem de pé,
mas penduradas do céu,
com o chão por solidéu?
Como? Ninguém o sabia,
nem poderia aprendê-lo,
dos elfos na sabedoria.

Por isso, sempre sozinha,
dançando como antes,
luzindo como brilhantes
com sandálias de cristal,
e pérolas nos cabelos
seguia Mi.
Com pérolas nos cabelos
com sandálias de cristal,
luzindo como brilhantes,
seguia Xi!

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5. O Homem da Lua Deitou-se Muito Tarde

Há uma estalagem, velha e boa estalagem
no sopé da colina;
E fazem lá uma cerveja tão fina,
que até o Homem da Lua veio cá abaixo
uma noite … e foi o diacho!

O moço de estrebaria tem um gato tonto
que toca rabeca para seu recreio;
E passa-lhe o arco pra cima e pra baixo
ora chiando alto, ora miando baixo,
ora arranhando no meio.

O hospedeiro tem um canito
que muito aprecia a boa chalaça;
Quando os hóspedes contam umas piadas,
ele arrebita a orelha a cada graça
e ri às gargalhadas.
Tem também uma vaca chifruda
altiva como rainha;
Mas a música dá-lhe volta à pinha
e fá-la sacudir a cauda peluda
e dançar na relva verdinha.

E, oh!, uma fila de pratos de prata
e um ror de colheres iguais!
Pró domingo há um par especial,
areado sábado à tarde,
por tal sinal.

O Homem da Lua bebia-lhe a valer
e o gato começou a gemer;
Na mesa dança um prato com uma colher.
A vaca esperneava à doida no prado
e o canito corria atrás do rabo.

O Homem da Lua bebeu outra caneca
e caiu ao chão pra uma soneca,
enquanto dormia sonhou com cerveja.
No céu as estrelas empalidecem
e a madrugada já há quem n’a veja.

E diz o moço pró gato tonto:
os cavalos da Lua já eu os conto.
Relincham e mordem os freios de prata.
Mas o dono afogou o juízo que tem
e o sol-nascente já aí vem!

Então o gato no seu violino, tocou o seu chi-ri-bi-ri-bi,
uma cegarrega de acordar os mortos:
guinchou, arranhou, sanfonou práli.
E o patrão sacudiu o Homem da Lua:
"Vão sendo horas de te pôres na rua!"

Rebolam o Homem pelo monte acima,
atiram-no à Lua lá da colina!
Vão os cavalos sempre a correr.
Esperneia a vaca como um veado,
acorre um prato com uma colher.

Apressa o ritmo o violino,
começa a rosnar uma cão.
Vacas e cavalos fazem o pino.
Saltam os hóspedes todos da cama,
e vêm dançar pró chão.
Com um vim e com um vum estoiram as cordas da rabeca;
Saltou a vaca por cima da Lua
e o canito, a rir-se, diz: "coa breca!"
Vem de sábado o prato numa corrida
e a colher de prata: "Sou toda tua!"

A Lua redonda escondeu-se no monte
ao surgir o Sol no horizonte.
Mal acreditava no que os olhos viam:
pois embora dia, e dia de semana,
todas aqueles voltaram prá cama.
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6. O Homem da Lua desceu muito cedo

O Homem da Lua tinha sapatos de prata,
A sua barba era de prata em fio;
O seu cinto era de pérolas
E de esmeraldas um rio.
Com seu manto cinzento, certo dia,
Atravessou salão sem fim.
E com chave de prata, muito em segredo,
Abriu uma porta de marfim.

Por escada de filigrana, toda fio reluzente.
Desceu ele levemente;
E quando ao fim se viu livre
Da sua louca aventura, até pulou de contente.
Por rútilos diamantes, que têm o seu sainete
Já tinha perdido o gosto. E até estava cansado
Do seu alto minarete, todo de vidro polido
E em paisagem lunar em alto monte pousado.

Por rubi ou por berilo, qualquer risco correria
Pra enfeitar a sua fralda,
Ou por novos diademas e por valiosas gemas,
Fosse safira ou esmeralda.
Estava também solitário, sem ter nada que fazer
A não ser olhar pró ouro
E escutar o seu zunido que de longe chegava,
À medida que o ouro rolava.

No plenilúnio da sua lua de prata
Em seu coração suspirava pelo Lume:
Não pelas luzes límpidas, desmaiadas,
Porque vermelho era o seu ciúme.
Por carmim e rosa e clarões de brasas,
De línguas dum fogo impetuoso,
Por céus escarlates ao romper do Sol
Quando nasce um dia tempestuoso.

Queria ter mares de azul e as cores vivas
De prados e verde floresta,
E ansiava pelo sangue dos homens
Para alegria das gentes em festa.
Adorava o cantar e o riso forte,
O vinho e as viandas quentes,
Comendo bolos perlados de flocos de neve
E bebendo luar para assombro das gentes.

Agitava os pés quando em comer pensava
Ou em pimenta e em ponche quente;
E subia descuidado a sua escada íngreme
E como estrela cadente,
Como meteoro em véspera de Natal,
Tremendo tombou como folha de papel
Da sua escada incerta para um banho de espuma
Na ventosa baía de Bel.

Começou a pensar, não fosse derreter e afundar-se,
O que faria na Lua,
Quando o barco dum pescador o encontrou ao longe a flutuar
Com surpresa da tripulação e a sua,
Apanhado na rede, trémulo e encharcado
Num esplendor fosforescente
De brancos-azulados e luares opalinos
E verde delicado e fundente.

Contra seu gosto e com o peixe do dia,
Para terra o remeteram:
"É melhor uma cama na hospedaria,
que a cidade fica perto", disseram.
Só o dobre dum sino triste e lento,
Lá na terra que olhava o mar,
Anunciava o seu cruzeiro saudoso da Lua
Nessa hora de estranhar.

Nem lareira se acendeu nem se fez pequeno-almoço
E a madrugada era molhada e feia.
Por lume, havia só cinzas, por relvado, havia pântano
E por sol, pobre candeia
Numa rua das traseiras. Vivalma não encontrou,
Nem voz que canto entoasse;
Em vez disso só ressonar, pois todo o mundo dormia
Esp’rando que a noite durasse.

Foi andando e foi batendo, mas portas céleres fechavam
E foi em vão que ele correu;
‘té que chegou a uma porta que tinha uma luz lá dentro
e ele no vidro bateu.
Cozinheiro sonolento lançou-lhe olhar quezilento,
Dizendo: "Que quer você?"
"Quero lume e quero ouro e belas canções antigas
e vinho a rodos, com raparigas!"

"Aqui não arranjas isso", disse ele com olhar turvo,
"mas posso deixar-te entrar.
Estou precisando de prata e de seda pra me tapar:
Talvez te deixe ficar."
Moeda de prata pró ferrolho levantar,
Uma pérola para a porta passar;
E mais vinte vezes isso
Para junto á lareira ficar!

Para a fome e para a sede, nada lhe passou pela boca
Sem que antes tivesse entregue uma c’roa e parte da roupa;
Tudo que, enfim, conseguiu, numa panela de barro,
Partida e suja de fumo,
Foi papa de milho fria e de chá velho um jarro;
E uma colher de pau pra comer a sobredita.
Para o pudim de Natal, com ameixas, bem docinho,
Chegava cedo de mais esta visita.
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7. O GIGANTE DE PEDRA - poema da autoria de Sam Gamgee.

Estava o gigante sentado, lá no seu banco de pedra,
A resmungar e a mascar um osso velho;
Por muitos e muitos anos sempre mascara no mesmo
Pois que a carne não vinha a esmo.
Não vem mesmo! Não vem mesmo!
Numa caverna dos montes, ele vivia sozinho,
E carne não tinha coitadinho.

E, então chegou o Tom com as suas botifarras,
E disse para o gigante: "Que osso róis tu assim?
Pois me parece a canela do meu tio Joaquim
Que devia estar lá no cemitério.
Cemitério! Ermitério!
Pois que há já muitos anos que o Quim se foi
E eu julgava-o deitado no cemitério."

"Meu rapaz", disse o gigante, "este osso eu o roubei.
Mas que valem os ossos que num buraco achei?
O teu tio estava morto como bala de chumbo
Quando achasse a canela já não era deste mundo.
Deste mundo! Furibundo!
E bem pode repartir com um gigante sem ela,
Pois quem não precisa da sua canela?"

Disse Tom: "Não sei como tu e teus iguais
Se apoderam assim sem menos nem mais
Da tíbia ou canela do irmão dos meus pais;
Dá o osso, por favor!
Achador! Salteador!
Por morto que ele esteja, é dele o osso;
Dá-o pois pra cá a este moço!"

" Por dá cá aquela palha", diz o gigante, e ri-se,
Também te como a ti e trinco-te as canelas.
Não tarda já que te meta os meus dentes
E vá carne fresca prás minhas goelas
Goelas! Ai’ que belas!
Estou farto de ossos e peluncas de velho
É jantar-te a ti que me aconselho."

Mas quando julgava ter a presa apanhada,
Viu que as suas mãos não agarravam nada
E sem lhe dar tempo de racicionar
Tom deu-lhe um chuto para o ensinar.
Sancionar! Castigar!
Pois um golpe de botas no assento
Seria a maneira de ele ter tento.

Mas mais duros que pedras são a carne e o osso
Daquele gigante, daquele colosso
É como dar um chuto no moliço,
Qu o assento dum gigante nem dá para isso.
Repete lá isso! Repete lá isso!
O velho monstro riu de Tom gemer;
Sabia que o pé lhe estava a doer.

A perna do Tom já pra pouco prestava,
Está muito trôpego o seu pé descalço.
Porém, o gigante a isso não ligava,
Agarrado ao osso que roubou ao dono
Mono? Ramono?
E o lugar do gigante é sempre o mesmo
Assim como o do osso que roubou ao dono!







 

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